Não havia grande coisa que pudesse dizer e, mesmo que quisesse, já se tinha formado uma bola gigante na minha garganta que me impedia de falar. É impressionante mas, mais uma vez, naquele momento fez-me ver o quão grande é.
'O que é que tu pensas sobre gostar de rapazes?'
Aí foi quando me caiu tudo, o mundo desabou, desapareceu sob os meus pés e eu fiquei suspenso dependente da minha resposta - qualquer que fosse. Não haviam palavras, apesar de depois me ter lembrado de uma centena delas que teriam feito um trabalho impecável.
Gaguejei e acabei por responder, tão calmo quanto podia:'Normal'.
Olhou para mim, minto, olhou através de mim até restar apenas a minha pele e os meus ossos, despiu-me sem pudores até me ler os pensamentos e não precisou sequer de pedir autorização.
'Queres então dizer, que gostas de rapazes?'
Agora já estava muito mais preparado, a bola gelada da minha garganta já se tinha movimentado o suficiente para conseguir falar como uma pessoa racional e as palavras já fluíam mais facilmente. Disse-lhe, depois de uns longos e demorados segundos de silêncio, que sim, que gostava. Ela olhou para mim, uma vez mais, e baixou os olhos até me perguntar num sussurro, 'Como é?'.
Não precisou de acrescentar mais nada para eu perceber, desta vez fui eu quem a despiu violentamente, fui eu quem leu os pensamentos numa invasão abrupta de privacidade.
'É exactamente igual a ti. Eu sinto como tu sentes. Eu gosto como tu gostas. Eu desejo como tu desejas. Eu sou como tu és, só que em vez de seguir o caminho convencional da natureza escolhi caminhar por um atalho que o destino me ofereceu por ser mais interessante, para mim pelo menos.'
Ela levantou-se tão calma quanto quando chegara, afastou-se um pouco de mim para garantir que não me sentia pressionado, e enquanto eu a via pesar todos os pós e contras através dos seus olhos, estendeu a mão como a tentar tocar-me. Riu-se, e disse 'Ser o que tu és dá trabalho, não dá? As pessoas, o que elas pensam, o que elas dizem. É muito mau.'
E para finalizar a nossa conversa 'a sério', eu disse-lhe o que lhe quis dizer desde o dia em que me assumi, em que me compreendi, 'Mãe, para todos nós ser 'eu' é complicado, para mim não é pior do que para os outros.'
No entanto ela é sempre a que tem a última palavra e, por isso, teve de ser ela a rabiscar Fim na folha do nosso diálogo, 'Tens razão, enquanto sorrires pouco me importa a quem dás a mão'.
Fim, disse ela.
Para o meu Melhor Amigo, que tanto me dá a mão a mim como ao rapaz de quem gosta e para a minha Melhor Amiga, que tanto me dá a mão a mim como à rapariga de quem gosta.

assério . tu nao escreves, tu fazes arte. fiquei :O
ResponderEliminare a frase 'Tens razão, enquanto sorrires pouco me importa a quem dás a mão' foi K.O. total. x)
não, não é o Augusto :p
ResponderEliminarGostei, claro que gostei. a melhor amiga gostou.
ResponderEliminarSer como sou é a melhor coisa do mundo.
ResponderEliminarA todos os que estão em fase de negação, não escondam aquilo que são, não vale a pena e além do mais o pride está aberto às sextas, sábados e domingos. Sexta entrada gratis sem consumo obrigatório. Talvez ajude ;) by "Melhor Amigo"