domingo, 22 de julho de 2007

Sonhos Diferentes

De pés descalços, olhos pregados no céu imponente, cabelos caídos de um modo despreocupado e um mero sorriso de espera emuldurado nos lábios. Caminhava por entre esplanadas repletas de gente, jovens e velhos jovens, sorrisos felizes, gargalhadas forçadas e, todas na sua maioria provocadas. Ao lado o mar suava forte, músico de uma melodia desconcertante capaz de levar qualquer mente aberta a penhascos violentos ou a praias de areia branca. Ela não parava, continuava a andar de passo seguro, cuidadosa para não maguar os pés descalços, agora atenta ao mundo vivo que a rodeava. De todos os lados, da esquerda, da direita, à frente, na retaguarda, todos os lados repletos de pessoas tristes, em busca de um encontro, à espera de respostas, felizes na sua infelicidade acumudada, pessoas... pessoas... E todas essas pessoas se pareciam divertir, em conversas interessantes, páteticas, sem assunto, estúpidas, românticas, constrangedoras ou provocantes. Mas riam-se... de copo erguido numa das mãos e a outra ocupada em disparatar sobre o mundo. Riam-se... teriam motivos para rir, ou riam-se apenas por rir, com fé num divertimento que nunca mais chegava e que por nunca chegar era imaginado para tentar surtir o mesmo efeito.
Resgatadas no meio daquela multidão, uma ou duas, três ou quatro, cinco ou seis, no máximo dez, encontravam-se pessoas com vontade de rir, não que vivessem no Paraíso, mas riam-se com a música do mar, com o som das gargalhadas, com o assobiar do vento, não muito procupadas com a bebida numa das mãos e com as conversas que se podiam estar a desenrolar sem interesse. Todas as outras, aos olhos do que ela podia ver, riam-se em submissão daquilo que engeriam, não podendo apreciar a realidade como um momento de preenchimento total sem precisar de complementos. Riam-se proclamando pela Natureza, que lhes dava tudo o que tinham, problemas, dúvidas, alegrias, e enganavam-se eles, complementos, copos e companhias.
E derrepente abri os olhos, não passavam de um inocente sonho, infelizmente fermentado com a verdade.

Mundo


O mundo rodopia em torno do seu próprio nucleo, como se se conhessesse desde que nasceu tão bem quanto agora, milhares de anos depois. Ciclo, após ciclo, cada um mais viciante que o anterior, ele observa todas as modificações, e em cada estação chora pela primeira folha que cai, feliz por saber que a vai voltar a ver nascer. Perde-se em histórias encantadas ao observar as suas cores maravilhosas, salpicadas e provocantes que desde o sempre o decoraram e se gastam aos poucos perdendo a cor. A cada novo nascimento ele sorri e tempera o mundo com uma nova especiaria de amor, esperançoso que desta vez perfume o coração de todos. Quase sempre em vão. Qualquer esforço é esquecido, e todas as fragrâncias contaminam o ar num mar gigante de alegria, um outro quadro que voltará a ser pintado uma enternidade depois. O mundo recusa-se a contar todas as verdades ao espelho que o vê, porque esse sim, é o mensageiro da sociedade e, tudo o que disser será o crime do Homem.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ser



Era uma pessoa diferente, não tinha muita confiança nele próprio, sempre que se olhava ao espelho não eram palavras de consolo que lhe alfuiam na mente, temia pelo pouco que tinha e poucas forças possuia para lutar pelo que ainda não conquistara. Parecia perdido, sózinho e mergulhado nele próprio, aos olhos de todos era frágil, aos meus estava apenas assustado por não se sentir igual. O cabelo que fugia para a frente dos olhos já não era jovem, parecia pintado pelos pelos estragados de um pincel antigo, que alternadamente coloria de cinza e branco uma base preta. Os olhos grandes e quase nunca limpidos e sinceros, eram castanhos, de uma cor trivial, que mais uma vez não lhe traziam alegria nenhuma. Parecia tão vulgar para os outros que se escondia no meio de uma multidão já ambientada com a sua presença, nem incomoda nem agradável. No fundo era uma pessoa interessante, inteligente, em busca de respostas, como todas as outras pessoas o fazem, com medos, como todas as pessoas os têm, era um ser como todos nós. Quase nunca visto, quase sempre olhado, e muito poucas vezes sentido.

Lembro-me de um episódio, quando tinha os meus 6/7 anosm que achei tremendamente assustador. Estava deitada na minha cama, com os olhos fixos no tecto a vaguear por imagens que nao se mostravam naquele fundo branco, mas que eu via com a clareza da realidade. Recordo-me que derrepente no meio de todas essas imagens surgiu o espaço, o vazio, as estrelas como luzes de presença pouco uteis, o nada a rodear-me e a encaminhar-me até ao meu conheço. Começaram-me a assaltar perguntas impróprias, Quem era?, Como é que seria se fosse outra criança com Aquela mesma alma?, O Que viveria eu noutra família?, Como me sentiria?. Foi quase como se me obrigasse a sair do meu corpo, distanciar-me um bocadinho e ver-me ali a pensar em todas aquelas perguntas que pareciam criar um buraco negro e muito fundo dentro da minha cabeça. Creio que foram as minhas primeiras explorações na procura do ser, do que sou, do que somos, e como tudo começou. Quem já não se sentiu assim?