quinta-feira, 16 de abril de 2009

Apenas mais uma.

A chuva impiedosa e incessante não se cansava de castigar as ruas, ou pelo menos era o que lhe parecia da janela do seu quarto. Apetecia-lhe sair de casa e deixar para trás todas as suas angústias, mas o dia não parecia estar a concordar com ele e a água gotejante trancara-o dentro das muralhas.
Afastou-se da cama e foi ligar a aparelhagem, pelo menos a música toldava os seus pensamentos e impedia-os para uma direcção apenas, a que a melodia lhe ditava. Tinha quinze anos e a maior vontade de fugir que qualquer adolescente pode provar. Irritava-o os olhares que os infelizes lhe lançavam na escola, irritava-lhe o facto de não ser – nem estar perto disso – o filho que os seus pais esperavam que fosse, irritava-lhe a ideia de repugnância que fazia aparecer na cara de qualquer rapariga que lhe oferecesse um olhar durante mais do que um segundo. Tudo naquela terra o irritava, inclusive o facto de ter de pertencer ali, irrefutavelmente. Por muito que nos contem as tretas do livre arbítrio ninguém esta à espera que o herdeiro da família mais prestigiosa da cidade abandone a herança por um palco, especialmente um filho barão.
Já tinha perdido a conta às vezes que lhe tinham repetido o quão medíocre era a música, mas sinceramente continuava sem conseguir perceber como é que aqueles idiotas não conseguiam sentir a melodia, viver a canção. Seria assim tão difícil de acreditar que eram os acordes que o faziam viver?
Sentou-se outra vez à beira da janela e rabiscou no caderno as primeiras palavras que lhe afloraram à mente. “Perdido, esquecido pelos próprios mandamentos da existência”, como se fizessem muito sentido para variar. Escrever para quê? Nunca desejara tanto algo e nunca algo lhe fora tão difícil de alcançar. As palavras não fluíam, as letras recusavam-se a aparecer, quão difícil poderia ser riscar aquilo que se sente num acto fugaz e espontâneo? Muito, estava a aprender.
Olhou lá para fora a tempo de ver o aceno que Mikey lhe acabava de fazer, sorriu em retorno e voltou a olhar para o caderno. Páginas brancas cheias de riscos e tentativas falhadas de desenhar o que se passava dentro de si. Mais valia esquecer e parar de tentar. Fechou o caderno e desligou a aparelhagem. Nestas alturas nem a música o podia salvar de cair no buraco negro das lamentações. Desceu as escadas, vestiu o casaco e saiu finalmente para a chuva que há tanto o chamava. Pelo menos haviam aquelas sensações únicas que conseguiam fazer da vida fantástica pela simples existência de momentos como aqueles. A água molhou-lhe o rosto e lavou-lhe o cansaço que se começava a instalar. Detestava ter de admitir mas, três noites com três horas de sono não eram propriamente parte de uma rotina agradável e feliz.
Começou a caminhar livremente pela rua, não estava à procura de nada mas se encontrasse uma resposta era capaz de ir à missa no próximo Domingo. Triste, mas verdadeiro, religião só em troca de algo, e algo muito bom. Era assim que as coisas funcionavam consigo. Uma guitarra - um mês de idas à igreja, um baixo - três confissões, uma oportunidade para se ir embora - crisma.

5 de Fevereiro de 2009, 20:39, Quarto, Sala?, Oleiros Paradise


Inicio de mais uma das minhas histórias que nunca cheguei a acabar.

1 comentário:

Sensações {fundamentadas, ou não}