quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A História de Ninguém


Esta não é uma história sobre culpa, medo ou pecados, não é uma história que faça chorar ou que faça rir, é uma história apenas, uma história real. Fala de um dos muitos que nascem, vivem e sofrem todos os dias, espalhados por este Mundo de ódio que tem como gasolina a dor. È uma história do âmago, sentida e sofrida, escrita nos olhos de uma criança que desejava nunca ter visto as suas memórias.
Ele, tal como os seus iguais, vivia escondido no medo de fechar os olhos e voltar a vivê-lo, voltar a senti-lo. Se alguma vez rezava era para pedir que não voltasse mais, que aquele momento fosse apagado, rasurado das suas lembranças infantis que pareciam demasiado velhas aos olhos da dor. Os outros fugiam do escuro por causa dos monstros, ele fugia da escuridão por causa de todas as imagens que ela lhe fazia surgir na mente; enquanto eles gritavam de medo, ele gemia de pavor; enquanto eles choravam por não saber o que ali existia, ele paralisava por saber os terrores que ali se escondiam. Uma aberração, era o que se sentia, abandonado num Mundo repleto de sorrisos quando a única coisa que lhe apetecia fazer era tapar a cara e fugir.
De todas as coisas que podia detestar haviam duas que odiava mais do que tudo, telefones e um dia em particular. Questionava-se incansavelmente sobre a funcionalidade daquele objecto estúpido que em vez de lhe facilitar a comunicação apenas trazia consigo, mais uma vez, aquele momento tenebroso que tanto se esforçava por apagar. Mas não, o telefone tocava uma vez por mês, depois uma vez por ano, depois de três em três anos, mas tocava sempre, e sempre que tocava nunca se esquecia de trazer a escuridão consigo. Só o toque anunciador da chamada fazia-o arrepiar de uma ponta à outra, não que tivesse medo, não, isso já tinha sido ultrapassado há muito tempo quando a dor se recusou a cessar, mas incomodava-o ter de voltar a lutar com os mesmos pesadelos. Agora o dia, o dia ainda era mais incompreensível do que telefone, que de vez em quando conseguia ter uma utilização prática. No inicio era em Dezembro, mesmo antes do Natal, mesmo antes das prendas e da ausência absurda que se instalava em casa. Na escola faziam-se prendas, as crianças sorriam, os professores incentivavam a felicidade, mas ele não se ria. Porque é que o devia fazer? O vácuo que lhe inundava o peito aproximava-se mais da raiva do que de qualquer outra sensação feliz. Houve um ano em que aquele dia chegou, um oito bem redondo no calendário da cozinha, no entanto na escola não havia agitação, não haviam prendas, não haviam promessas nem sorrisos. Foi o dia oito mais feliz da sua vida, não havia nada para festejar e, por segundos, uns milésimos segundos, ele acreditou que alguém mágico, iluminado por uma inteligência superior que lhe tinha andado a espiar os sonhos, removera aquele dia aterrador do calendário. Pelo menos foi com o que sonhou até a professora, carcereira da sua felicidade, rematar alegremente que a data tinha sido alterada e que o dia indesejável vinha agora estragar a sua Primavera. Dia da Mãe, a invenção mais egoísta do Homem. E quem não tem mãe? E quem tem uma mãe desnaturada? Finja, responde a sociedade num berro bem alto que faz estremecer as montanhas do céu.
Se haviam as coisas que ele mais detestava também haviam as coisas que ele mais prezava, aquelas que eram a sua essência viva e que guardavam com a sua autorização pedaços da sua alma. Coisas pequenas, sem grande importância aos olhos de quem passava, uma fotografia, uma pulseira, uma camisola, qualquer coisa que viesse do passado para relatar a sua história no presente. Era nessas coisas que ele encontrava força para continuar, para sorrir e matar a dor, e foram nessas coisas que ele encontrou a chave com que fechou a porta à escuridão numa tentativa frustrada de matar de vez a memória.
Deambulava sozinho nas ruas entre o intervalo do almoço e do jantar enquanto se escapava do olhar protector de quem zelava por ele, ouvia as conversas dos estranhos que passavam e via no céu palavras que ninguém em redor ouvia. Vivia acompanhado na solidão do seu íntimo, sem nunca se revelar, sem nunca gritar alto o que realmente importava. Os seus olhos eram um espelho do mundo e o seu coração a fotografia da dor.
Um dia, pela altura do Natal, perguntaram-lhe o que é que ele queria que o Pai Natal lhe desse, disseram-lhe que se se tivesse portado bem qualquer coisa era plausível. Ele fechou os olhos e o seu rosto iluminou-se num esgar de esperança, depois sussurrou baixinho, “Quero o meu pai de volta e que todos os telefones expludam”. O homem que lhe tinha feito a pergunta arrependeu-se imediatamente de a ter colocado, mergulhar os dedos na ferida de uma criança são mais de vinte e cinco toneladas para a consciência. Ele reparou imediatamente pela reacção do senhor que nada do que pedira ia ser realizado, que o homem gordo de vermelho não existia realmente e que o Natal não era nada mais do que uma farsa para o fazer sentir a escuridão em forma de vazio.
Os anos foram passando, as coisas continuaram a deter um pedaço da alma dele, o telefonei deixou de tocar, mas no entanto, a memória nunca se apagou e aquele momento nunca desapareceu. O que ele desejava lembrar evaporava um ou dois segundos depois, tal e qual água a voar para o céu, mas o que ele queria esquecer era pior do que rocha, mantinha-se firme na terra e nem a deterioração conhecia.
Esta é a história de Ninguém, criado pelo mundo e aniquilado pela vida, um em tantos outros” Alguéns” que vivem por aí, perdidos ou esquecidos, vivos ou quase mortos, mas sem nunca encontrarem o caminho certo para casa.
Tatiana Rocha

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