quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ser



Era uma pessoa diferente, não tinha muita confiança nele próprio, sempre que se olhava ao espelho não eram palavras de consolo que lhe alfuiam na mente, temia pelo pouco que tinha e poucas forças possuia para lutar pelo que ainda não conquistara. Parecia perdido, sózinho e mergulhado nele próprio, aos olhos de todos era frágil, aos meus estava apenas assustado por não se sentir igual. O cabelo que fugia para a frente dos olhos já não era jovem, parecia pintado pelos pelos estragados de um pincel antigo, que alternadamente coloria de cinza e branco uma base preta. Os olhos grandes e quase nunca limpidos e sinceros, eram castanhos, de uma cor trivial, que mais uma vez não lhe traziam alegria nenhuma. Parecia tão vulgar para os outros que se escondia no meio de uma multidão já ambientada com a sua presença, nem incomoda nem agradável. No fundo era uma pessoa interessante, inteligente, em busca de respostas, como todas as outras pessoas o fazem, com medos, como todas as pessoas os têm, era um ser como todos nós. Quase nunca visto, quase sempre olhado, e muito poucas vezes sentido.

Lembro-me de um episódio, quando tinha os meus 6/7 anosm que achei tremendamente assustador. Estava deitada na minha cama, com os olhos fixos no tecto a vaguear por imagens que nao se mostravam naquele fundo branco, mas que eu via com a clareza da realidade. Recordo-me que derrepente no meio de todas essas imagens surgiu o espaço, o vazio, as estrelas como luzes de presença pouco uteis, o nada a rodear-me e a encaminhar-me até ao meu conheço. Começaram-me a assaltar perguntas impróprias, Quem era?, Como é que seria se fosse outra criança com Aquela mesma alma?, O Que viveria eu noutra família?, Como me sentiria?. Foi quase como se me obrigasse a sair do meu corpo, distanciar-me um bocadinho e ver-me ali a pensar em todas aquelas perguntas que pareciam criar um buraco negro e muito fundo dentro da minha cabeça. Creio que foram as minhas primeiras explorações na procura do ser, do que sou, do que somos, e como tudo começou. Quem já não se sentiu assim?

1 comentário:

  1. E já tiveste melhores, não me lixes. Se há alguém que é uma preguiçosa és tu. Continua a fazer o que estavas a fazer.

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Sensações {fundamentadas, ou não}